DANÇANDO COM TECIDOS AO VENTO – UMA PERFORMANCE COM AUDIODESCRIÇÃO

Fotografia colorida, em plano médio (da cintura para cima) de Lívia, Cristiana, Andréia e Rosângela, da VER COM PALAVRAS, todas sorridentes, em frente ao grande painel de arte urbana, com fundo lilás e personagens coloridos de pernas e braços finos, pintado por Os Gêmeos, na entrada do MAM.As duas apresentações com audiodescrição da performance VARAL DE NUVENS que aconteceram no Parque do Ibirapuera, no Jardim das Esculturas, nos dias 02 de maio e 13 de junho, foram encenadas em um cenário perfeito: céu azul, muito sol, uma brisa suave que balançava os tecidos finos e despenteava os cabelos, canto da passarinhada, interesse do público que foi se acomodando no gramado, em torno das esculturas, ou à sombra das árvores.

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Fotografia colorida de algumas pessoas em pé embaixo de uma árvore, usando fones de ouvido e receptores, dentre elas Andréia Paiva, Cristiana Cerchiari, Ana Terra e Mari Dessordi.Mas o que é mesmo uma performance? É um gênero artístico, desenvolvido desde os anos sessenta, que resulta da fusão de expressões como o teatro, o cinema, a dança, a poesia, a música e as artes plásticas, com objetivo de interagir mais diretamente com o público. Este tipo de expressão artística teve origem em algumas manifestações do movimento futurista, nomeadamente nas ações desenvolvidas pelo seu fundador, Filippo Marinetti e foi muito utilizada pelos artistas dadaístas e surrelistas, tal como pelos membros da escola de arte Bauhaus e também pelo Grupo Gutai do Japão. (http://www.infopedia.pt/$performance-art)

A primeira performance que audiodescrevemos foi INTENTO, um solo da atriz Estela Lapponi, apresentada na Mostra Mais Sentidos no Teatro Sérgio Cardoso, em outubro de 2013, com roteiro e narração de Andréia Paiva.

Entender as especificidades desse gênero, a quem se destina, onde e por quem será encenada e quais são os argumentos coreográficos; saber que a cada apresentação, poderá haver diferentes formações coreográficas de acordo com a interação da plateia, tudo isso é importante para a elaboração do roteiro de audiodescrição e para a preparação do audiodescritor.

O Jardim das Esculturas, cenário da apresentação, foi projetado por Roberto Burle Marx e inaugurado em 1993. Tem trinta esculturas expostas em uma área de seis mil metros quadrados, sendo um dos principais acervos brasileiros a céu aberto. As esculturas estão distribuídas por grandes canteiros com árvores frondosas, palmeiras, grama e pedrinhas, contornados por caminhos de concreto.

Na primeira apresentação da performance, participaram 4 pessoas com deficiência visual e na segunda, apenas uma, mas em ambas várias pessoas sem deficiência quiseram conhecer o recurso e assistir com fones e receptores.

Fotografia colorida das cinco bailarinas fazendo uma pequena roda, com os braços dobrados a altura dos ombros segurando pedaços coloridos de tecido fino com aproximadamente 2 metros de comprimento.Para quem não foi, transcrevo abaixo um trecho bem curto do roteiro para mostrar a delicadeza e suavidade do espetáculo do grupo Lagartixa na Janela, dirigido por Uxa Xavier, artista e educadora da dança, que investiga a linguagem da dança no espaço urbano, tendo como público alvo o universo infanto-juvenil. Um privilégio poder conhecer e acompanhar o trabalho do grupo, interagir com a diretora, produtora e bailarinas, participar dos ensaios no parque, assistir à performance no SESC Santo Amaro.

As cinco jovens bailarinas, usando roupas de tecidos estampados, listrados e xadrezes, em tons de vinho, roxo, lilás e azul piscina, com meias coloridas, saem de dentro do MAM, silenciosas e sorridentes, e espalham-se pelo gramado. Cada uma dirige-se para uma escultura diferente, tocando pequenos apitos de madeira que imitam o som dos pássaros.

Taís encosta-se no Relógio do Sol, uma escultura de ferro pintada de preto, alta e fina, com aproximadamente 3 metros de altura. Susana vai em direção a uma grande escultura de alumínio fundido que lembra uma casca de árvore. Tatiana abaixa-se no meio de um escultura intitulada Sectiones Mundi, que parece um labirinto, com metade de um círculo de concreto e ferro ao centro. Bárbara deita-se sobre uma escultura de concreto com oito peças que lembram cornetas colocadas na horizontal.

Taís esconde-se atrás do Relógio do Sol. Aparece. Susana abaixa-se, apoia-se no ponto mais alto da escultura que parece a casca de uma árvore.

Tatiana levanta-se lentamente. Movimenta e inclina o tronco para frente e para trás.

Bárbara move-se para direita e para esquerda. Parece curiosa, inquieta… Levanta-se, inclina o corpo e a cabeça para trás…

Usam o apito de madeira para emitir sons de passarinhos. Os pássaros escondidos na vegetação exuberante do parque parecem responder…

As bailarinas movimentam-se devagar, deixando o calor do sol esquentar a pele, sentindo a brisa do vento, ouvindo o som dos pássaros. As pessoas em volta observam silenciosas, apontam, sorriem. Algumas sentam-se no gramado, outras procuram a sombra das árvores.

As meninas bailarinas seguram cuidadosamente um pedaço de pano rosado, que assemelha-se a uma nuvem. Colocam na cabeça como que equilibrando a nuvem, algo tão precioso e frágil.

Tatiana coloca sua nuvem atrás do pescoço.

Dão alguns passos com os braços abertos, erguendo as nuvens para o alto. Erguem a nuvem para o alto com uma mão, com as duas… Taís nina sua nuvenzinha carinhosamente, como se fosse um bebê. Bárbara coloca a sua nas costas. Algo precioso, suave que pode desfazer-se a qualquer momento.

As bailarinas aproximam-se. Taís abre seu pedaço de tecido. Sua nuvem desmancha-se. Na sequência, as outras bailarinas vão abrindo seus tecidos, e fazendo formas com eles. As nuvens movimentam-se no céu com o sopro do vento, desenhando formas diversas. Na terra, as bailarinas fazem formas de bichos com seus tecidos brancos.

Bárbara sacode seu tecido a frente do corpo, como se fosse a grande tromba de um elefante. Aline abaixa-se e seu movimento desenha a corcova de um camelo. Em seguida amarra o pedaço de tecido na cabeça, deixando as pontas soltas como se fossem os chifres de um grande alce.

Separam-se, correndo com os tecidos ao vento.

Fotografia colorida das bailarinas abaixadas em torno de um montinho de gravetos, cercados pelos tecidos esticados no chão, assemelhando-se a uma fogueira. Do lado direito, uma garotinha aproxima-se. Ao fundo, Lívia faz a audiodescrição segurando uma prancheta com o roteiro, Daniella Forchetti segura o pequeno Myguel, e embaixo da árvore,  estão Mari, Andréia, Cris e Talita Bretas.

Fotografia colorida das bailarinas em pé, com os braços abertos para cima, em torno de um montinho de gravetos, cercados pelos tecidos esticados no chão, assemelhando-se a uma fogueira. Dois garotinhos aproximam-se com gravetos na mão e colocam na fogueira. Ao fundo, Lívia faz a audiodescrição segurando uma prancheta com o roteiro, Daniella Forchetti segura o pequeno Myguel, e embaixo da árvore,  estão Mari, Andréia, Cris e Talita Bretas.Muito interessante poder perceber e acompanhar a reação da plateia, a interação das crianças com as bailarinas e com as atividades que lembram jogos da infância, como uma amarelinha desenhada com gravetos no chão de pedrinhas, uma pipa, ou a fogueira feita de pequenos galhos de árvores que vão sendo gradativamente colocados no centro de um quadrado feito com tecidos.

Os depoimentos de Cristiana Cerchiari, professora e consultora em audiodescrição, e de Edgard Jacques, bailarino, que lá estiveram, destacam percepções e elementos que compuseram a cena.

“Sábado tive o privilégio de ver um espetáculo de dança com audiodescrição arrasadora e suporte excelente da empresa VERCOMPALAVRAS. Teve sol para nos bronzear, vento para fazer as folhas do roteiro de AD voar, interferência nos radinhos em razão do vento, interação entre a plateia e as bailarinas… Foi o primeiro espetáculo ao ar livre com AD que assisti. Que venham os próximos!” Cristiana Cerchiari

Fotografia colorida de Edgard segurando sua bengala em uma mão e o receptor na outra, em pé, com fones de ouvido,  no Jardim das Esculturas, tendo ao fundo o Relógio de Sol e arvoredo. À sua frente, um garotinho está abaixado brincando com bambolê e do lado direito, um homem de braços cruzados observa a cena.“De acordo com a pouca percepção que tenho, não consigo imaginar outra maneira para um deficiente visual acessar um espetáculo de dança, senão pela audiodescrição. No caso de “Varal de Nuvens”, a situação não poderia ser diferente. Por se tratar de uma performance realizada em local aberto, a primeira sensação que se tem é a de que estamos prestes a enfrentar algo extremamente energético e rude. Entretanto, segundo informações que me foram passadas, pude concluir que a coreografia é sim energética, mas é igualmente suave e de fluidez inegável. Assisti ao número num grande parque da cidade de São Paulo, um lugar que, na perspectiva de um cego, dado o seu tamanho, sua imponência, pode parecer opressivo. Contudo, ao me deparar com a dança do grupo LAGARTIXAS NA JANELA, tal hostilidade se perdeu. A sensação que carreguei para casa aquele dia foi a de que o lugar também a mim pertence, eu que não enxergo. Se o propósito da apresentação era mudar a relação que a pessoa tem com o espaço público, ela teve grande êxito. Passei, por alguns instantes, embevecido com a impressão de que me tornei íntimo daquele gigante arborizado.” Edgard Jacques

Por Lívia Motta – em junho 2015.

3 Comentários para DANÇANDO COM TECIDOS AO VENTO – UMA PERFORMANCE COM AUDIODESCRIÇÃO

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    belíssimos o registro, o excerto do roteiro e os depoimentos. parabéns, meninas da ver com palavras, artistas e público! cultura acessível faz mesmo bem pra todo mundo! beijos comovidos.

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      Querida Mimi, muito obrigada por acompanhar nosso trabalho de pertinho e vibrar conosco por tantas oportunidades de tornar a arte acessível para todos os públicos!!! Beijos felizes, Lívia

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      Obrigada, querida Mimi!!!

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